Eu não vi.
De repente o mundo todo de cabeça para baixo.
E eu envolto a uma pequena poça de sangue.
Minha cabeça! O crânio foi afetado, dói, realmente dói muito.
Não pode ser, todos eles se foram, todo mundo jogado no chão.
Mas eu não, por que! ?
- Um teste.
Uma voz disse.
- Um teste? Eu retruquei.
E logo vieram os gritos:
- PODEM ERGUER!
E o guindaste fez o trabalho bruto, juntou todo o resto dos estilhaços e pedaços de ferro aos quais não atingiram ninguém. Foi pouco. Muito pouco. Sobrou muito. Excessivamente muito.
Não compreendi porque eu continuava ali parado, com as pernas cruzadas. Os bombeiros chegaram, e eu não parti. O som da sirene evaporando com a distância apertava o meu coração.
Dor.
Sofrimento.
Angustia.
Não sabia em que lugar, em que mundo, em que parte do meu “eu” estava compenetrado nesse exato momento. A única coisa que sei agora é que uma melancolia me abateu assim de forma grosseira. Sem bater na porta, sem pedir licença.
Eu olho pra cima e vejo algumas nuvens que ameaçam segregar-se uma das outras e o céu azul ficando alaranjado decretando o final de mais um dia.
E abaixo de mim, ainda vermelho. Sangue. Muito sangue. Chão praticamente rubro-negro sangue meu fresco e sangue coagulado dos meus amigos mortos. Que eu matei? Não. Eu não matei ninguém. Fechei os olhos e quando abri estava no 1º DP e me disseram que acharam duas garrafas de vodca Absolut no carro. Mas eu não bebi. Eu juro. O delegado me disse que vodca causa amnésia, o que será isso? Esqueci.
O que foi que eu fiz?
Porque todo mundo aponta o dedo pra mim?
Assassino? Não, não posso ser. Eu amo meus amigos.
A voz volta a me flertar:
- Um teste.
E dessa vez fiz questão de ficar calado. Quanta coisa veio até minha cabeça. A infância, o Henrique, o Ricardo, o João, o Roberto, todos nós correndo e brincando, jogando futebol, se divertindo e a ultima lembrança que tenho deles é a piscina de sangue exposta ao meu redor, e ninguém sorrindo. Ninguém se divertindo.
Cheguei em casa, fiz questão de não falar com ninguém, sei que todos já sabem. Prefiro adentrar direto pela porta dos fundos e subir até o meu quarto. Tirar minha roupa. Me dirigir até o banheiro e encher a minha banheira com água morna e sais de banho, preciso pensar. Preciso agir. Preciso voltar a viver. Eu não matei ninguém. Eu não sou um assassino. Mas não é o que dizem. E sinceramente, não é o que eu sinto. Estou choroso, mas não consigo chorar. Não consigo sentir culpa. Não me sinto mal pelo que fiz.
Amanhã farei uma visita a casa de cada um de seus pais. E preciso parecer sincero. Mesmo que os meus olhos não demonstrem isso. Mesmo que a minha irresponsabilidade tenha sido a tônica de toda a minha vida, preciso parecer sincero. Isso é o que se comercializa, é o que se vende, é o que se troca. Preciso convencer. Sou um bom administrador. Administro sentimentos, administro amizades, administro meus prazeres, sou como um bom ventríloquo, faço a pessoa dançar, conforme eu quero e não conforme a dança. E dessa vez não vai ser diferente. Caso não forem bons anfitriões, cabe a mim cuspir no túmulo de seus filhos, posteriormente voltando à embebedar-me, e prodigar mais do que o normal nessa vida que já fiz questão de jogar com as minhas duas mãos, no lixo.
Nada bom. Foi como eu imaginei. Não convenci. Não fui convidado para tomar chá com biscoitos. Eles me vêem como um vilão. Não consigo entender isso. Acho que não sou um bom perdedor, afinal de contas de tão inconformado, quantas vezes repeti a palavra “não” ? Preciso me refugiar. Uma toca. Renovação, esse é o nome certo. Um local onde eu possa começar do zero, ludibriando com meu pouco intelecto ao qual “administro” com todo respeito também, muito bem – todos que possam agregar o meu ciclo social. Maldita bebida. Não consigo me desvencilhar dos meus vícios. Já roubei vidas, amores, paixões, dinheiro, caráter, amigos, mas nunca imaginei que isso pesaria para mim dessa forma.
Mas dizem que existe solução fácil pra esse tipo de coisa, esquecer e empurrar com a barriga. Eu juro que amo meus amigos, mas de que vale a vida deles, se eu não me divirto? Vou me fazer de vitima, afinal de contas estou traumatizado. Coitado de mim. E ninguém vê isso. Ninguém me defende. Por isso que eu uso minha habilidade parar estar envolto a essa camada de mentiras, acho que minha vida vai até o final dessa forma. E finalmente parei de ouvir aquela voz chata me dizendo que era um teste, esse teste eu já passei. Contornei tudo isso da forma mais fácil. Conservei boas amizades, e ainda fiz outras. Acabei com vidas, mas isso é um ciclo natural. Enquanto 4 se vão, 8 se renovam. Isso é bíblico. Não me culpem. Espero que vocês sejam felizes, porque eu estou sendo e muito. E agora por favor, licença que eu to indo ali abrir uma garrafa de Absolut.
Vinicius Canova Pires
